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Impressão 3D em Barcelona dá vida aos projetos de Gaudí

Texto de Estêvão Borges, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo das Faculdades Integradas Vianna Júnior

Berço de grandes inovações e sinônimo de vanguarda, a cidade de Barcelona se destaca no cenário da Arquitetura e do Urbanismo apresentando grandes conceitos e teorias aplicados em seu território, marcando a história e ditando os rumos da produção arquitetônica atual. Com uma história de aproximadamente 4000 anos, a cidade de Barcelona ganhou destaque no período romano, se tornando um dos principais portos do Mar Mediterrâneo. Porém, é no período de expansão industrial em que encontramos toda a vanguarda que a cidade apresenta.

Comandada por grandes industriais têxteis e pela intensa atividade portuária, Barcelona recebeu grandes investimentos e, junto a isso, um dos primeiros projetos de “urbanização” existentes: o Plano Cerdà. Baseado na ideologia humanista, o engenheiro Ildefonso Cerdà estabeleceu uma estrutura de quadrícula com dez vezes a área que Barcelona tinha anteriormente, exigindo a abertura de ruas e zonas verdes na parte central das quadras. Afastando as zonas industriais do centro urbano, o engenheiro também propôs estabelecer alturas máximas às edificações e criou um sistema de coleta de água.

Mapa da cidade de Barcelona já constando o Plano Cerdà – Estêvão Borges – Acervo Pessoal (Park Güell, Barcelona/Espanha – julho de 2018)

 

Ainda sobre a leitura urbanística, podemos destacar o grande plano criado para as Olímpiadas de 1992 como um marco da evolução da cidade. Buscando uma forte revitalização da zona portuária, as diretrizes inspiraram o Brasil para as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, como podemos ver o que foi alcançado na Praça Mauá.

Além do urbanismo, Barcelona tem grande destaque na área da Arquitetura, como observamos o bairro gótico e sua Catedral com todos os elementos marcantes desse estilo arquitetônico. Terra natal de Antoni Gaudí, Barcelona também se destaca por concentrar o maior acervo do arquiteto, como as casas Milà e Bátllo, o Park Güell e o Templo Expiatório da Sagrada Família, exemplares da arquitetura Art Nouveau.

Maquete da Casa Milà concebida na Impressora 3D – Estêvão Borges – Acervo Pessoal (Casa Milà, Barcelona/Espanha – julho de 2018)

 

Em 1929, recebeu a Exposição Universal que deixou como legado para a cidade o Pavilhão Alemão, projetado pelo arquiteto Mies van der Rohe, sendo uma das edificações mais emblemáticas do período moderno mundial. Das construções contemporâneas, podemos destacar diversos edifícios projetados pelos maiores nomes da arquitetura atual, como os suíços Herzog & De Meroun, o arquiteto francês Jean Nouveau, Santiago Calatrava, Toyo Ito e Richard Meier.

Pavilhão Mies van der Rohe – Estêvão Borges – Acervo Pessoal (Barcelona/Espanha – julho de 2018)

 

Tal apresentação histórica serve de base para entendermos como o que acontece em Barcelona tem impacto geral na área da Arquitetura e do Urbanismo. Em uma visita realizada em julho deste ano, pude ver como as novas tecnologias estão impactando não só no que está sendo projetado nos dias atuais, mas também na conservação e preservação de grandes edifícios.

Voltando à Sagrada Família, temos um dos mais importantes expoentes da arquitetura Art Nouveau do mundo. Gaudí assume o projeto em 1883, aos 31 anos de idade, trazendo com ele todos os seus conceitos únicos e interpretações individuais. Depois de um longo período influenciado pelo estilo neogótico, o arquiteto catalão volta seus estudos para os elementos da natureza e a leitura orgânica das formas, buscando o significado de que a obra do homem não poderia superar a obra de Deus.

Templo Expiatório da Sagrada Família – Estêvão Borges – Acervo Pessoal (Barcelona/Espanha – julho de 2018)

 

Cercada de detalhes, composições e formas extremamente complexas, Gaudí evita representar todos os elementos de sua arquitetura em desenhos e foca no desenvolvimento de protótipos e modelos em gesso. Afinal, já com idade avançada, o arquiteto sabia que não estaria vivo para ver a conclusão da obra. Além disso, em relatos históricos, o arquiteto que sempre foi adepto do uso de tecnologias pediu para que fosse utilizados todos os recursos mais avançados disponíveis para a conclusão da obra.

 

Ao longo da Guerra Civil Espanhola, grande parte dos estudos deixados por Gaudí foram destruídos, complicando ainda mais a execução da complexa e extensa obra. Porém, a partir de 2001, com a utilização de uma nova tecnologia, foi possível recuperar parte desses fragmentos: a impressora 3D.

Localizado no porão da construção, o laboratório de impressão se torna o coração do canteiro de obras, trazendo à vida os conceitos pensados por Gaudí. É nele que, com a ajuda de arquitetos com acesso à tecnologia desde a sua formação e avançados softwares da área de modelagem, surgem protótipos que serão utilizados na fabricação dos blocos da fachada.

 

Utilizando o processo de scanner e reimpressão do sistema geométrico original, o método trouxe grande celeridade na execução e maior fidelidade ao projeto original do arquiteto. As intenções de projeto de Gaudí podem passar por uma engenharia reversa a partir desses modelos digitais, possibilitando o desenvolvimento e fabricação dos componentes de projeto. Com a implantação desse método construtivo, foi possível estabelecer um prazo para o encerramento da obra, definido para 2026, ano do centenário da morte de Gaudí.

O processo utiliza duas impressoras 3D que constroem os protótipos, camada por camada, permitindo que os construtores alterem manualmente os modelos, atendendo às demandas específicas do edifício. O fluxo desse trabalho movimenta uma cadeia de profissionais que atuam diretamente na modelagem e estudo desses módulos, abrindo diversas novas especialidades no campo da arquitetura e da engenharia.

Com visitas à casa Milà, também observei um grande museu da trajetória do arquiteto, expondo os estudos de Gaudí que, graças a utilização da nova tecnologia, puderam ser apresentados a partir de modelos impressos em 3D, permitindo maior entendimento e clareza nas informações. Isso facilita a compreensão por parte dos visitantes, profissionais e alunos tornando a aprendizagem e o entendimento espacial, funcional e construtivo um processo mais leve e interativo.

 

E é assim, a partir do conhecimento in loco de novas tecnologias, que podemos identificar quais fatores podem ser de extrema importância e grande diferencial na formação e vivência de um futuro arquiteto. O contato direto com a impressora 3D, desde a sua formação, e o conhecimento de como saber explorá-la em todas as áreas da arquitetura e da engenharia, como na concepção de projetos novos e na exploração de edifícios de grande relevância histórica, abrem um grande campo no mercado de trabalho futuro.

 

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